Na idiotopólis Ocidental todos estudam e poucos sabem alguma coisa. Nesse mundo edulcorado para fins de consumo a injustiça e a desigualdade serão em breve erradicados, o mundo será despoluído e todos serão livres, felizes, saudáveis e prósperos. Os carros e os aviões deixarão de poluir, a população mundial aumentará mas os recursos permanecerão abundantes e saudáveis, a produção e o consumo aumentarão num mundo cada vez mais solidário e sapiente.

Se perguntarmos a uma qualquer pessoa submetida à programação ideológica, por exemplo, sobre o clima, pouco haverá de provas e factos, mas citará um qualquer média e falará do “fascismo” de Trump e Bolsonaro. Padecemos colectivamente da síndroma da girafa da amazónia. Submetidos a um excesso de informação não aprofundado e em perante mutação, somos chamados a prenunciarmos diariamente sobre os mais diversos temas, temos a paixão da opinião e o orgulho da imbecilidade. Tudo está programado para não haver tempo para assimilarmos a informação, por isso essa é debitada em quantidades gigantescas e permanente e desse modo não percebermos muito sobre o sobre o qual opinamos, uma espécie de refeição ingerida sem tempo para ser mastigada.

O fim da história, o triunfo de uma ideia de democracia liberal, ou pseudodemocracia não foi um erro de análise de Francis Fukyama, mas a expressão de um programa, impor uma visão definitiva da história. Essa mundividência neoliberal progressista é uma variação dos fenómenos modernos totalitários, mas mais subtil e eficaz, os escravos amam a sua escravidão e não questionam os dogmas a que se submetem. Este credo tem os seus profetas, oficiantes, evangelistas, heréticos, puros e impuros. Juntamente com o seu big brother amável, que zela por nós, nos diz como viver, o que podemos dizer e fazer e nos indica o sentido único do bem. A ONU, OMS, FMI, BCE, OCDE e personificações humanas como é o caso de Greta Thunberg (GT) são instrumentos desse big brother.

GT surge como a adolescente imaculada e guiada pela luz salvífica do bem que salvará o mundo da maldade convertendo as nossas mentes e corações. Esta criança já não é uma pessoa de carne e osso, mas também não é um símbolo, é um produto comercial e simultaneamente a expressão acabada do cinismo e da ignorância programada do nosso tempo. Como já percebemos, quem não reproduzir a versão oficial, será rotulada de fascista, reaccionário, negacionista, retrógrado e a sucessiva ladainha de fobias culturalistas.

GT e um souvenir ideológico e o retrato da estupidificação contemporânea, onde a caverna platónica ganha mais actualidade que nunca. O fundo da caverna é agora um enorme ecrã digital onde passa a versão oficial e única da realidade.

GT não é uma fabricação inocente ou bem-intencionada, é uma fantasia hipócrita de um certo elitismo Ocidental cínico e detestável. Faz parte das utopias Disney da versão de um mundo justo, igualitário, clean, friendly, eco, híbrido, fluido, auto sustentável, próspero e opulento. As manifestações, os live aid, os rituais da ONU são as missas dominicais do ambiente e momentos de catarse na obra de manipulação para efeitos da deformação mental colectiva.

Vivemos cada vez mais desenraizados, mais infelizes, sós e doentes, num tipo de sociedade onde as desigualdades económicas e sociais são cada vez maiores, mas que importa essa realidade perante a importância de nos centrarmos no consumo da carne de vaca para salvar o planeta? Uma boa ideia seria começarmos a produzir objectos com uma duração superior e a não dependermos tanto da tecnologia e aprendermos a viver uns com os outros. É possível. Porque não o fazemos?

As elites astuciosas que nos governam, como não vivem na realidade, mas numa teoria da realidade, continuam a insistir na imposição dos seus infernos para nos salvarem, esses paraísos distópicos que os emocionam no seu mundo dispendioso e inacessível ao comum dos mortais. Das suas torres de marfim comandam o show mediático sobre a extinção das espécies, o bloco de gelo da Antártida, o aumento do buraco do Ozono, o mês mais quente de sempre, o efeito do consumo de carne de vaca no aquecimento global, etc.

Haverá melhor para para portador do grito apocalíptico sobre o mundo e as possibilidades de redenção que uma criança? O uso de crianças como sinónimo de uma ideia de pureza e saber puro para fins de propaganda são bem conhecidos desde a propaganda bolchevique, nacional-socialista, etc. A máquina de propaganda do século do século XXI aprofunda a propaganda do século XX e torna totalmente amador tudo o que está para trás. A venda de ideias transformadas em eventos e espectáculos adquire uma dimensão inédita, acolitada pelos média, meras agências de comunicação e publicidade dos grupos que ditam as modas ideológico-comerciais.

É óbvio que há alterações climáticas, mas nem tudo é branco ou preto, bom ou mau, fascista ou civilizado como exige o novo maniqueísmo dos tempos mais informados de sempre. Não se negam as alterações climáticas, nem podem ser negadas, mas temos que pensar efectivamente o que são essas transformações no ambiente, o que as provoca, o que querem que pensemos e o que é dado cientifico e o que é ideologia .

Uma parte de eventuais alterações ambientais será sempre a consequência de modos de vida. No nosso presente, considerando os custos e os benefícios podíamos e conseguíamos viver de outro modo? Não podemos abdicar de uma crítica ao consumo e ao capitalismo predatório, assim como travar uma luta crucial em relação às agendas demênciais do progresso que querem sempre redesenhar um novo homem e uma nova sociedade construindo monstros e pesadelos e que são traições da noção de progresso.

As politicas de defesa do ambiente e os disparates diários mais não são que sketches cómicos dos filmes mudos, onde o ladrão engana o policia com uma finta, induzindo-o numa direcção errada. O fundamental não está a ser confrontado, o modelo ideológico, político e económico (mas também cultural, e principalmente mental) dos últimos cem anos que predomina no Ocidente e que se tornou exponencial a partir dos anos 80. Os movimentos ecologistas, os partidos verdes, as campanhas ambientais são peças desse equivoco, intencional para uns, simples desinformação e ingenuidade para outros.

Estaríamos dispostos ou seriamos capazes de alterar radicalmente o nosso modo de estar? Ter um telemóvel ou dois uma vida inteira? Dispor de uma ou duas viaturas ao longo da vida? De ter uma dúzia de camisas e sapatos até ao fim dos nossos dias? A valorizar outros aspetos que não os do consumo? Aceitávamos diminuir os nossos hábitos consumistas partilhando mais tempo uns com os outros e cultivando o conhecimento? Vamos voltar a consumir principalmente só o que precisamos e não transformar essa necessidade numa filosofia de vida e no prazer mais significativo da nossa existência? O impacto da mudança de comportamento não se mede por usar menos uns sacos de plástico ou comer menos uns bifes ou andar umas horas de bicicleta.

Preservar o melhor da civilização Ocidental implica defender o melhor que fizemos e pensamos face ao que de facto altera o nosso modo de vida conquistado ao longo de milhares de anos. Não podemos abdicar de uma crítica ao consumo e ao capitalismo predatório, assim como travar uma luta crucial em relação às agendas demênciais do progresso que querem sempre redesenhar um novo homem e uma nova sociedade construindo monstros e pesadelos e que são traições da noção de progresso.

A visão ultraliberal do mundo e o tipo de capitalismo e consumo vigente são em muito responsáveis pelo tempo terminal em que vivemos. Nestes tempos terminais proliferam sempre seitas e facções com os seus delírios monomaníacos, colonialismos, feminismos, dezenas de géneros, animalistas, radicalismo alimentar, etc, nada têm de novo, apenas nova roupagens.

O progresso tal como o concebemos é incompatível com um ambiente inalterável. A história deste conceito, que é também a nossa história sofreu uma deformação profunda, o bezerro de ouro da modernidade e a alma da civilização Ocidental é agora um conjunto de cacos incompreensíveis.

Como é que vamos reduzir a população mundial para metade? Como vamos impedir a noção de obsolescência e regressar à reutilização de utensílios como fizemos durante toda a nossa história, incluindo a nossa roupa?

Podemos sem qualquer ironia optar por uma visão metafísica e não falhamos o alvo. Importa contextualizar o que se passa num planeta que é um minúsculo grão de areia num enorme Oceano, o universo. Parece por vezes que este “problema” é chave da continuação do universo ou a sua extinção, exageramos na importância que nos atribuímos e à nossa continuidade. Não somos o centro de nada, nem o alfa e ómega do universo e é mais que sabido que o nosso frenesim poderá acarretar a nossa extinção numa período mais breve que o previsível.

Estranhamente se há uma unanimidade entre os principais líderes mundiais, quem detém o poder económico e os intelectuais sobre o que é o bem e o paraíso na terra porque não se transforma a sociedade nesse éden irrecusável? E note-se que chineses, indianos e outros ainda não vivem como os ocidentais, e têm o mesmo direito. Mas não podemos pensar e questionar o credo oficial e os seus dogmas laicos de fé. A rejeição social, até o desemprego e problemas judiciais podem ser o destino de quem tem a coragem de pensar.

João M. Brás, Professor de Filosofia e Escritor

24 de Setembro de 2019

Parte 1 – https://www.noticiasviriato.pt/post/greta-thunberg-e-os-apanhados-do-clima-parte-1

Parte 3 – https://www.noticiasviriato.pt/greta-thunberg-e-os-apanhados-do-clima-parte-3/