Francisco Rodrigues dos Santos não resiste à tentação de pôr-se em bicos de pés. Falando há dias sobre o caso de Odemira, teve razão no que disse. Infelizmente, em política a razão de pouco serve quando se não tem credibilidade. Cabrita pô-lo no seu lugar: “Coitado do CDS, é um partido náufrago”. Assim é, ou não atribuísse uma das últimas sondagens 0% ao CDS. Noutra, o partido apareceu com três, desgraça que o desesperado Francisco não tardou em reclamar como um triunfo digno de César. Tendo recebido a missão difícil, mas por inteiro realizável, de salvar uma instituição doente, FRS assassinou-o em pouco mais de um ano. Só não ficará para a História como o enfermeiro sádico do seu partido, aquele cuja cobardia matou o paciente que lhe haviam confiado, porque ninguém se lembrará dele – mesmo agora, quase ninguém sabe que existe. Verdade triste, talvez, mas todas as verdades importantes doem a alguém.

Na noite da sua demissão, quando decidir por fim libertar-se a si mesmo e ao seu partido do calvário de absurdo que tem sido a sua presidência, Francisco terá a apresentar um só argumento ilibador: que falhou tendo feito o possível, que melhor ninguém teria conseguido, que o vento dos acontecimentos se pusera contra o CDS e que ele, perante o rumo das coisas, só podia aspirar a um afundamento honroso. Isto é – e será quando for dito diante das câmaras – uma inverdade absoluta. É certo que o surgimento do Chega e da Iniciativa Liberal complicaram o cálculo a um partido habituado há muito a ter o voto gratuito – porque sem alternativa – daqueles 5-10% do eleitorado que perfazem a “direita”. É certo, também, que a sabotagem descarada, nua e crua, do Deep State do Caldas à nova liderança não lhe facilitou a vida, e que o caos interno, pelo menos, ajudou à implosão.

Contudo, sejamos francos, era alguma destas dificuldades imprevisível quando Francisco Santos tomou as rédeas da presidência ? Alguém podia, já há um ano, duvidar de que Chega e IL eram ameaças de morte para o CDS ? Alguém imaginava que a máquina que desde há décadas controla e vive do CDS abriria mão dele sem luta ? Talvez, sim: alguém com a capacidade de análise e leitura política de um tijolo. Para mentes mais ágeis, o que veio a passar-se foi sempre gritantemente claro.

Eu que o diga: há dez meses, em gorada missão de salvamento, tive com o já líder do CDS longa reunião de trabalho. Horas de conversa em que lhe expusemos, com um rigor que até a nós veio a surpreender, tudo o que depois se passou – nem nos calendários das revoltas a vir nos enganámos significativamente. O que propusemos foi uma revolução: que o partido pusesse os olhos nos grandes fenómenos que abalam todo o Ocidente e se refundassse – de imagem, de ideias, talvez até de nome. Sugerimos que acabara o tempo do jargão tecnocrático, transubstanciado em mar de micro-propostas tediosas, ditas num politiquês que repugna o eleitor comum. Sugerimos que a questão determinante era, agora, a resposta a dar à globalização económica e cultural – se se é por ela ou pelo princípio nacional, pela diversidade cultural face ao triturador mundialista e pela soberania dos Estados diante dos que querem extingui-la.

Queríamos um partido patriótico na economia e na sociedade. Na primeira, defensor de um capitalismo humano e alinhado com o interesse da nação mais que com o das hiper-empresas; uma economia, pois, onde o Estado é forte sem ser asfixiante, está onde deve estar pelo bem comum e é proteccionista quando necessário. Na segunda, zelador intransigente da nossa História e da nossa honra de povo antigo, da nossa liberdade face a blocos supranacionais, disposto a recuperar a nossa independência perante Bruxelas e consciente da importância de fazer do mundo pluricontinental da Portugalidade uma verdadeira confederação, dotada de instrumentos práticos que a convertam em actor de primeira relevância no xadrez geopolítico. Queríamos o fim da política-poliqueira dos micro-casos e do detestável nada que tem atado Portugal ao definhamento. Era um projecto  moderno, face de um patriotismo consequente, armado de ideias e verdadeiramente soberanista, capaz de entusiasmar e de fazer sonhar um povo há muito mergulhado na apatia e no cinismo. Francisco ouviu e participou; tirou notas, mostrou-se interessado, apalavrou-se novo encontro. Nunca ocorreu. Quanto à coragem do recém-eleito líder, fiquei então esclarecido. Percebi por fim a razão da alcunha que lhe davam no Colégio Militar: “o rato”.

Ou porventura não fosse a cobardia o principal dos defeitos de Francisco, mas uma desmesurada impressão de si mesmo. Em homens de capacidades excepcionais, a arrogância é uma mancha tolerável; nos medíocres, é coisa grotesca. Líder do partido, sem formação cultural ou cabeça dada à estratégia, pareceu a FRS que a salvação do CDS se faria por prenda divina. Bastar-lhe-ia aparecer e repetir o número de circo que impressionara a Juventude Popular, de que foi presidente: lançar slogans ensaiados frente ao espelho da casa de banho, soltar umas palavras de ordem, distribuir firmes apertos de mão. Encantado com o novo gabinete no Caldas, fez guerra a quem lhe quisera bem; inseguro, medroso de que outros mais capazes lhe fizessem sombra, rodeou-se de inúteis e yes-men que o aplaudiram até ao precipício e, lá chegados, o traíram e acusaram de todas as culpas no desastre. Ninguém lhe disse, nem ele pensou, que no mundo real não são rapazes de liceu quem vota, e que quem pede a confiança dos eleitores tem de ter a apresentar argumentos mais convincentes que um berro bem mandado. As eleições ganham-se percebendo as pessoas e o que as preocupa; ganham-se falando ao homem real mais que tentando agradar ao micro-cosmos convencido e estéril dos jornais e das televisões; ganham-se falando sem medo, assumindo convicções, dando luta, oferecendo uma visão, convidando ao sonho e apresentando ideias a sério.

Tudo isto podia FRS ter sido; nada disto foi. Ele dirá que a morte do CDS era inevitável, o que não é verdade. O culpado é ele mesmo: ele mesmo e a sua imaturidade, a sua húbris, o seu medo das ideias, o seu terror de afrontar o baronato decrépito do partido e de distinguir-se do PSD, em quem preferiu ver a bengala que lhe permitisse continuar a satisfazer apetites e a distribuir lugares. Não foi Chicão. É Chiquinho.

Rafael Pinto Borges